Entrevista Money Moicano: lutador de Brasília conquista o mundo com belas finalizações, autenticidade e irreverência de sobra

Renato Moicano (calção amarelo) desafiou Islam Makhachev pelo cinturão peso-leve, no UFC 311, em 18 de janeiro de 2025, em Inglewood, Califórnia EUA (foto: Jeff Bottari).
No mundo do MMA, onde muitas respostas são ensaiadas e o respeito beira o clichê, o brasiliense Renato Moicano é um ponto fora da curva. Sincero até a alma e sem filtros em suas entrevistas pós-luta, o lutador nascido no Distrito Federal transformou sua personalidade irreverente em uma das marcas mais valiosas do UFC atual: “Money Moicano”. Mas não se engane pelo carisma: por trás do apelido e das análises econômicas afiadas, existe um finalizador implacável que ostenta o recorde de ser o segundo atleta da história da capital federal a disputar um cinturão do UFC, a maior organização de lutas de todo o planeta.
Antes de Moicano, o caminho até o topo do Ultimate para os candangos foi aberto por Antônio “Pezão” Silva. Em maio de 2013, o peso-pesado de Brasília subiu ao octógono para enfrentar Cain Velasquez pelo título mundial no UFC 160. Doze anos depois, coube a Renato Moicano repetir o feito. Em janeiro de 2025, Moicano aceitou o desafio de enfrentar o campeão Islam Makhachev no UFC 311. Embora a vitória não tenha vindo, o “filho de Brasília” solidificou sua posição na elite global e provou que o DF é terra de campeões.
Direto da American Top Team (ATT) na Flórida, onde hoje reside e treina ao lado dos maiores nomes do esporte, Moicano conversou com exclusividade com o DF Esportes. Atualmente ocupando o 10º lugar no ranking dos leves do UFC, o brasiliense vive um momento de transição e expectativa. A aguardada revanche contra Brian Ortega, que estava marcada para o UFC 326 em 7 de março de 2026, caiu recentemente devido a “constantes lesões” do norte-americano. E como de costume, Moicano não se abateu. “Eu quero bater no boi, mas se o boi correu, tragam o próximo”, disparou em suas redes sociais, mantendo o estilo que o tornou amado pelo público.
Com um cartel de 20 vitórias, 7 derrotas e 1 empate no MMA profissional, Moicano é reconhecido pela eficiência técnica, especialmente no chão. No UFC, já são 18 combates, consolidando uma trajetória de mais de uma década na organização.
Ficha Técnica do “Money Moicano”:
Origem: Brasília, DF (Treinou na Constritor Team)
Residência: Coconut Creek, Flórida (Treina na American Top Team)
Posição no Ranking do UFC (Leve): 10º colocado
Estilo: Faixa-preta de Jiu-Jitsu e especialista em Muay Thai
Nesta entrevista exclusiva ao DF Esportes, Moicano fala sobre o desejo de buscar uma nova chance pelo cinturão, apesar de considerar que aos 36 anos está cada vez mais difícil concretizar esse sonho. Ele ainda indica Gabriel Bonfim como o primeiro lutador do DF a se tornar campeão do UFC, comenta a relação profissional com Dana White (CEO do UFC) e o UFC, a marca histórica de ser o segundo lutador do DF a disputar o cinturão do UFC, dos amigos de Brasília e, claro, não tem medo de falar o que pensa para milhões de fãs.
“E eu falei: ‘Big checks, big stakes, Moicano wants money’. E aí todo mundo começou a falar: ‘Moicano wants money’ e aí virou Money Moicano.
DF Esportes – Lembra daquela resenha que te deu o apelido de Money Moicano? Parece ter sido algo natural, sem planejamento…
Renato Moicano – Foi depois de uma luta, que o DC (Daniel Cormier entrevistou Moicano após ele vencer Alexander Hernandez no UFC 271, em fevereiro de 2022) veio me entrevistar e eu falei: “Big checks, big stakes, Moicano wants money” (cheques gordos, apostas altas, Moicano quer dinheiro). E aí todo mundo começou a falar: “Moicano wants money, Moicano wants money, Moicano wants money” e aí virou Money Moicano.
DF Esportes – Você sempre fala o que pensa e, por ser uma pessoa sincera, deve ter arrumado algumas confusões. Muitas vezes as pessoas não gostam de ouvir a verdade, né? Por outro lado, os seus torcedores são pessoas que admiram não só sua forma de lutar, mas sua conduta como pessoa. Existem diferenças entre o Money Moicano e o Renato Alves Carneiro? Se sim, quais?
RM – É… em relação a isso, eu acho que tem sim, né? Uma coisa é minha vida pessoal, outra coisa é quando eu tô ali na câmera. Então, muita gente chama de personagem e acaba virando um personagem, né? Porque aquele ali é meu jeito, mas um jeito um pouquinho acima, né? Eu dou uma empolgada a mais, porque quando eu tô ali na câmera, o que eu penso é o seguinte: eu quero fazer uma coisa que eu gostaria de ver. Eu quero, então, dar um tune-up, né, que é o que os caras falam. Então, tem diferença, né? Se o cara me conhecer na vida real, eu não vou ficar gritando, falando, mas eu eu sempre procuro ser o mais sincero possível.
DF Esportes – Aquele garoto do judô e do jiu-jitsu, que começou nas artes marciais em Brasília, quando ele olha pra trás e vê todo esse legado, tudo o que conquistou, o que ele pensa? Ele conquistou seus sonhos? Ele está agradecido pela carreira?
RM – Pô, quando você faz essa pergunta, aquele garoto do judô do jiu-jitsu que começou, quando ele olha para trás, legado, eu não me preocupo muito com legado, não. Não me preocupo, mesmo. Eu não me preocupo sobre como as pessoas vão lembrar de mim. Cada um vai ter a sua percepção. Eu acho que dentro de uma geração, minha família já esqueceu de mim. A maioria das pessoas vai ser esquecida em no máximo duas gerações. Então, não me preocupe com legado, não. Eu fico muito feliz de ter escolhido esse caminho, de ter dado certo. Eu sou muito grato, velho. Eu dei muita sorte. As pessoas gostam de falar o quanto elas se deram bem, o quanto elas foram fodas. E eu sei que eu sou bom no que eu faço, eu sou bom na luta, eu sou bom na comunicação, mas tem muita sorte envolvida, também. Tá no momento certo, vê a tendência certa, vê o que estão fazendo. De uma hora para outra o algoritmo de alguma coisa muda, isso muda completamente tudo, o jeito que entregaram o vídeo, entendeu? Uma viralização do nada, de uma luta, pode mudar sua vida. Então, muita sorte, né? E eu não tô… é… realmente preocupado com o legado, não. Eu tô só feliz por ter dado certo. Do fundo do coração, mano, eu fico muito feliz de hoje em dia ter uma audiência, de ter uma galera que acompanha e que gosta do trabalho.
“Agradeço muito ao UFC, tudo que eu tenho eu tenho por causa do UFC, absolutamente tudo. Então, até mesmo o canal no YouTube foi tudo por causa do UFC”
DF Esportes – Depois de mais de 10 anos no UFC, uma disputa de cinturão. Você caiu nas graças do Dana White. Ele te adora. Eu até acredito que ele queria te ver campeão do UFC, não só pelo artista marcial que você é, mas também por toda a resenha e o entretenimento que você gera pra companhia. Como é sua relação com o chefe?
RM – Em relação não só ao Dana White, mas ao UFC, eu acho que é bem profissional. Eu acho que eles são uma companhia, então não tem essa de eles gostarem ou não do atleta. Eu acho que tem mais a ver com o que que o atleta tá rendendo pra companhia, né? Eu acredito que se eu tivesse estourado mais, tivesse acontecido o que aconteceu mais cedo, eu seria uma opção mais viável, mas agora eu já tô com 36 anos. Eu não não não sinto essa… vamos dizer assim, cair nas graças do UFC, entendeu? Mas vou fazendo a minha parte, vou trabalhando, agradeço muito ao UFC, tudo que eu tenho eu tenho por causa do UFC, absolutamente tudo. Então, até mesmo o canal no YouTube foi tudo por causa do UFC, né? Porque as pessoas me conheceram pelo UFC. Então, eu sou muito grato, mas a relação sempre é a mais profissional possível.
DF Esportes – Você ainda se vê sendo campeão do UFC? Você consegue visualizar a conquista, sendo o primeiro lutador de Brasília a conquistar a cinta da maior organização de MMA do planeta?
RM – Em relação a ser campeão do UFC, eu gostaria muito, mas eu vejo que minhas chances são cada vez menores. Já tô mais velho. Eu acredito muito que eu sou bom, mas tem surgido outras oportunidades. Eu gosto de lutar, mas eu também gosto do YouTube, eu gosto de dinheiro, também. E eu tô ganhando mais dinheiro agora. Então, eu tô feliz, graças a Deus. Eu não acho que eu vou ser o primeiro campeão de Brasília, mas eu acho que Brasília tá muito bem encaminhada aí com o Gabriel, né? O Gabriel Bonfim é um cara que tá vindo muito bem na categoria. Eu acredito que ele tem muitas chances de ser campeão. É novo, bom de boxe, completo. Lembro dele treinando desde pequeno e eu acho que ele vai ser um grande futuro aí desafiante do UFC. Muito difícil você pegar e dizer: “Esse cara vai ser campeão”. Ser campeão do UFC envolve também muita sorte, envolve momento, envolve gestão de carreira, envolve muitas coisas Eu não sei se ele vai ser ou não, mas ele tem grande chance. É assim, se eu fosse dizer alguém de Brasília para ser campeão, eu diria ele.
DF Esportes – Até os dias atuais, somente dois lutadores do DF disputaram o cinturão do UFC. Você e o Pezão. Como é essa sensação de perceber que, em termos de MMA, vocês são os maiores lutadores da história do DF? Acho que podemos afirmar que vocês dois são os maiores do DF até hoje. Qual a sensação de chegar tão longe? Você imaginava que chegaria nesse patamar? Top 10 do UFC, disputa de cinturão, um dos maiores nomes do MMA mundial?
RM – Eu não sei se eu… eu não me sinto como um dos maiores atletas de Brasília, não, mesmo. Até porque isso nunca me interessou, entendeu? A minha busca no UFC sempre foi muito pessoal. A minha busca como atleta sempre foi muito pessoal. Eu queria provar que eu era um dos melhores atletas do Brasil, do mundo, mas eu nunca pensei assim; “Ah, eu quero ser o maior atleta de Brasília”. Acho que isso nunca nem passou pela minha cabeça. O que eu sempre quis foi fazer o máximo que eu podia. O máximo, entendeu? É assim que eu via. Velho, eu quero fazer o máximo que eu podia e, porra, no começo nem eu não acreditava em mim. Cada vitória eu fui acreditando mais, cada conquista eu fui acreditando mais e o que eu quero depois é usar toda essa minha experiência para ajudar mais pessoas de alguma forma, seja com um projeto beneficente, seja alegrando a vida da galera nas lives, seja comentando lutas, seja lutando, entendeu? Eu gosto muito de Brasília. Brasília como toda cidade tem os seus problemas, né? Mas vivi em Brasília praticamente a minha vida inteira, só saí para vir para os Estados Unidos. Mas é uma grande honra. Eu nunca nem tinha pensado nisso, entendeu? A pergunta foi, né? de como eu me sentia, de só os dois ter lutado o cinturão, eu nunca nem tinha nunca nem tinha parado para pensar. E parando para pensar agora eu fico fico feliz, mas também como eu te falei, não é o que me move, o que me move é o me desafiar. Papo chato do caralho, esse papo de eu me desafiar, mas eu mas eu vou te falar, eu procuro não me comparar muito com os outros. Porque não tem como eu saber a história dos outros. A única história que eu posso tirar de base é a minha, a única pessoa que eu posso ser melhor sou eu mesmo, eu não sei qual é a vida dos outros, entendeu? Então, eu procuro não me comparar muito.
“Eu não acho que eu vou ser o primeiro campeão de Brasília, mas eu acho que Brasília tá muito bem encaminhada com o Gabriel Bonfim, um cara que tá vindo muito bem na categoria. Eu acredito que ele tem muitas chances de ser campeão.
DF Esportes – E os planos pro futuro? Paddy Plimbet… Dan Hooker…
RM – Seria excelente uma luta contra o Pad Pimblett, o Dan Hooker, mas a gente não sabe. Geralmente o UFC não coloca lutadores que já são veteranos para lutar com outros veteranos, né? Geralmente eles vão querer fazer a gente servir de escada, né? Isso é o que acontece geralmente, mas vamos ver, nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.
DF Esportes – A sua carreira nas redes sociais? Tá curtindo a vida de comentarista? Fale sobre seus canais.
RM – Hoje em dia eu tenho um canal no YouTube. A galera que quiser assistir: Renato Money Moicano, um canal muito engraçado. Faço livestream das lutas, faço comentários esportivos e vou tentando levar tudo na brincadeira, tentando fazer o MMA ser uma parada mais engraçada, mais divertida, que a galera gosta de entrar lá, fazer uma comunidade em que o pessoal gosta de se divertir, de rir. Então, eu tô muito feliz para ser bem sincero, acho que também me encontrei no YouTube, apesar de ser meio vergonhoso, o cara ser chamado de YouTuber, mas eu gosto de fazer as gracinhas lá, conectar com a galera. E quem puder no Brasil inteiro ir lá assistir, vou ficar muito feliz de ter você como inscrito lá no canal. Osssss!
DF Esportes – Manda uma mensagem pros seus amigos, antigos treinadores e colegas, também pra torcida do DF que te acompanha e torce tanto por você.
RM – Pô, queria mandar um grande abraço para todo mundo de Brasília. Principalmente a galera que eu treinei a vida inteira, a galera lá da Constrictor Team. Mas não só a galera da Constrictor Team, como todas as academias, todas mesmo. A gente ia na época na Cerrado, antes de ir na Cerrado eu ia na FFT também, ia no Galiza. Na Five Rounds. E um monte de outras academias, todo mundo em Brasília, eu girava Brasília treinando, na RKT também do Guti Inocente, ia treinando em todas as academias, fazia o que eu podia, sempre fui muito bem recebido em absolutamente todos os lugares que eu fui. Queria agradecer muito o mestre Athaíde Júnior, o Rodrigo Aguiar, o Cubano também, que era o cara que eu treinei muito boxe aí, a galera da UNB, da Constrictor que a gente ia também bastante lá. Os parceiros de treino. Cara, se eu for falar todo mundo aqui eu vou esquecer, vou esquecer, irmão, porque era muita gente, muita gente, Rander Júnior, Adriano Moraes que tá aí, Tubarão, toda a galera mesmo, Gilberto Dias, toda a galera que tava com a gente todo dia, esses caras fizeram parte da minha história e eu sou muito grato aí e também todo mundo de Brasília mesmo, todo mundo, velho, muito obrigado por quem torce por mim.
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