Já pensou naquelas cenas e relatos de filme, em que você imagina nunca encontrar pessoalmente? Pois é, encontramos uma surpreendente e bonita história, mais precisamente na cidade do Recanto das Emas. O protagonista dessa novela da vida real se chama Raílton Alves, aos 10 anos de idade “Raí” como gosta de ser chamado, teve pela frente o seu primeiro adversário.

Ele descobriu que sofria de retinose pigmentar que é um conjunto de doenças hereditárias que causam degeneração na retina, região do fundo do olho. É na retina que as imagens são capturadas a partir do campo visual. O problema foi crescendo e em menos de dois anos Raí perdeu totalmente a visão. Um grande golpe para um menino cheio de sonhos, nesse tempo em que lutava contra a enfermidade o casca-
grossa conheceu o Jiu-jitsu, se apaixonou e não parou mais.

O esporte foi um enorme aliado para Raí não se abater, “ Eu conheci o jiu-jitsu quando estava perdendo a visão. E foi muito importante na minha vida, eu me dediquei muito, mesmo não conseguindo mais enxergar”, conta com satisfação o primeiro faixa-preta deficiente visual da capital federal.

Ao longo do tempo, mesmo com todas as dificuldades o lutador foi se adaptando e construindo o seu “jogo” dentro do jiu-jitsu. E para surpresa de todos ele se aventurou nas competições do esporte, mas não era com oponentes com alguma deficiência, e sim com lutadores em perfeitas condições, com a visão normal.

No princípio ele conta que ninguém o apoiava “Muitas pessoas não me apoiavam e diziam palavras negativas e desanimadoras. Falavam que eu não iria conseguir lutar, que poderia me machucar. Eu percebia que na hora do combate eles facilitavam, deixavam um braço exposto para eu fazer um golpe, não se esforçavam para não levar uma queda, essas coisas”, contou Raí.

Isso o deixava chateado, o faixa-preta nunca aceitou ser visto como inferior ou taxado de coitadinho. Sempre treinou forte na academia de igual para igual com qualquer um “ Eu pensei se for para lutar comigo, tem que ser de igual para igual, sem essa de peninha”. A força interior do atleta deixa qualquer um constrangido, ele é um exemplo para todos a sua volta. Raí não aceita que a deficiência visual o torne menor do que os adversários “Eu tenho muita fé. Isso é apenas mais uma batalha que preciso vencer, eu treino muito todos os dias, com a certeza de que posso enfrentar qualquer
um”, disse Raí.

E a pergunta que não quer calar para todos, como o faixa-preta aprendeu mesmo sem a condição de enxergar os golpes, chaves e alavancas que o jiu-jitsu possuí? Ele tem a resposta na ponta da língua, “ Isso é bastante interessante, quando a pessoa está vendo uma exposição de posição, até mesmo por vídeo aula ela consegue aprender algo, um detalhe e ajuste. Eu já tenho que fazer tudo na prática, na exaustão dos movimentos. E também na adaptação do meu jogo, eu sempre tento e busco dar o primeiro ataque no adversário, pois aí minha chance de vencer é muito maior”, falou o
campeão.

Entre os títulos mais importantes da carreira do campeão está, o Pan de Jiu-jitsu realizado na cidade do Rio de Janeiro, onde o atleta fez três lutas duríssimas com atletas normais. Na capital paulista sagrou-se campeão Sul-americano e também faturou o internacional da UAE Jiu-jitsu Federation. O atleta sonha e ir mais longe e é inspiração para todos na academia, como do faixa-branca Rafael Machado, “ É um privilégio ter ele aqui conosco. O Raílton é um exemplo de superação. Ele ajuda todos, sempre com uma nova posição, além de muita paciência na hora de ensinar os golpes”, contou Rafael.

Hoje o lutador de 29 anos, tem como objetivo continuar crescendo dentro e fora do jiu-jitsu. O atleta tem o apoio total de sua família, ele é casado e pai de dois filhos. A expectativa é faturar medalhas e dar incentivo aqueles que precisam de um exemplo de motivação, persistência e foco. O professor e mestre do atleta, o faixa-preta Djonhso Silva acompanha desde o início,
há mais de uma década juntos ele fala da alegria em ver o pupilo Railton brilhando dentro do tatame, “ Ver onde ele chegou é motivo de muito orgulho e satisfação, muitos desistem no caminho. Não é fácil chegar na faixa preta, mas ele não desistiu, e a conquista veio através de muito treino, suor e dedicação. Ele é uma referência para todos”, contou o amigo e professor.

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